Peguei um ônibus em copacabana para voltar para casa. Ele estava cheio, tive que me sentar do lado de uma mulher que aparentava ter uns 36 anos.Era um sábado de carnaval, o ônibus havia pego uma rua com bloco, então iria demorar. Eu tinha dois caminhos, ou me entediar pensando nos meus próprios problemas ou me divertir ali mesmo.
- Oi, tudo bem? Posso ler sua mão?
- Hãn?
- O ônibus vai demorar, e eu tenho tido aulas de quiromancia e queria testar com alguém.
- Por que você não lê a dos seus amigos?
- Porque eu os conheço muito bem, e eu não saberia dizer se a leitura está dando certo ou eu estou seguindo o que conheço deles.
- Não é sacanagem né?
- Não, não.
- Você cobra pela leitura?
- Hahaha, eu tenho cara de cigano?
- Não tem não, desculpa... Tá, pode ler.
Peguei sua mão e primeiro analisei a linha do amor, depois a linha da cabeça e e enfim a linha da vida.
- Você é uma pessoa que se entrega completamente nos seus relacionamentos, e isso já deve ter sido a causa de sérios problemas na sua vida amorosa... Ou você trabalha com algo relacionado a biologia, ou seus pais são separados... E por último, você não é uma pessoa que vive uma vida de aventuras e topa qualquer coisa pra sair de casa. Você vive cautelosamente, mas isso não significa que sua vida não seja intensa do seu ponto de vista.
Olhei para o seu rosto e vi seus olhos arregalados. Eu já estava esperando pelas típicas peguntas de "Como você fez isso?", "Onde eu posso aprender" quando ela cortou os meus pensamentos.
- Eu me divorciei semana passada. Amava um cara que agora não sei nem porque me pediu em casamento. Eu cursei biologia na faculdade, mas não segui o ramo. E eu realmente sou chatinha para sair de casa.
Será que eu deveria seguir uma carreira de cigano? Até eu estava surpreendido com o resultado. Os papéis haviam invertido. Agora eu é quem estava achando que ela estava me sacaneando. Mas ela continuou:
- Qual é o seu nome?
- Gabriel... e o seu?
- Meu nome é Amanda.
Ao som de "Minha mulher não deixa não" e com um ônibus rodeado de foliantes ela me perguntou sobre a minha vida, o que eu fazia, e os meus sonhos. Amanda tinha 36 anos e tinha perdido a fé no amor completamente após uma sucessão de decepções amorosas. Eu contei a ela minhas histórias nos últimos dois anos.
- Mas você é jovem demais pra ficar sofrendo.
- Eu acho que todos nós somos jovens demais pra sofrer...
Ela olhou para a janela e refletiu. Continuamos a conversar e dez minutos depois descemos no mesmo ponto. Caminhei até a casa dela, e ela me deu um cartão do seu escritório. Fui comprar meu pão e voltei pra casa.