Eram 21:15 da noite. Quando vi a tempestade, não parei para pensar. Vi que meu ônibus estava parado no ponto e corri o mais rápido que pude. Paguei os R$ 2,40 ao trocador e encontrei um assento no fundo do ônibus. Encharcado, sequei meus óculos e já comecei a me preparar para mais uma jornada musical até minha casa. A chuva ficou mais forte. O ônibus não andou muito até que parou e não se moveu mais.
As pessoas levantavam de seus assentos e iam até o motorista perguntar o que estava acontecendo.
- Tem muitos carros enguiçados lá na frente por causa da chuva, por isso que está esse trânsito. Depois que os carros forem rebocados a gente vai poder continuar.
Como todos os outros eu me sentei e acreditei naquilo. Era mentira. Mais tarde eu iria ver com os meus próprios olhos o que tinha acontecido.
Havia um grupo de cerca de 6 alunos da UERJ conversando atrás de mim. Os comentários eram incrivelmente animadores.
"Ih, na chuva do ano passado teve professor dormindo na UERJ"
"É, minha amiga teve que esperar dentro do ônibus e só chegou em casa 3 horas da madrugada"
"Relaxa aí pessoal, o jeito é esperar"
A passividade deles era assustadora. Como assim relaxar até 3 horas da madrugada? Uma das meninas colocou uma venda nos olhos e começou a dormir. A outra pegou o celular e começou a assistir CQC. O outro abriu um pacote de biscoitos. Apenas um deles parecia querer mudar a situação.
Apesar disso eu continuei sentado e me mantive passivo como eles. Pela janela consegui ver comboios de pessoas passando com a água batendo até os joelhos. Ouvi comentários de dentro do ônibus chamando-os de malucos. Eu discordava. Naquela hora eu preferia estar lá fora andando até minha casa do que ficar de braços cruzados dentro do ônibus. Só me faltava coragem e alguém pra me guiar naquele terreno desconhecido. Eu não sabia para onde ficava o metrô.
O motorista desligou o ônibus. Fiquei mais de uma hora ali observando uma moça entediada com os papos estranhos de um senhor, tentando escutar as piadas da Monica Iozzi e invejando as pessoas que passavam encharcadas ao lado do ônibus.
Até que, enfim, a correnteza mudou. Um rapaz de cerca de 25 anos levantou atrás de mim e foi decidido até a porta do ônibus. Um dos estudantes da UERJ comentou:
- Aquele cara ali parece que vai fazer alguma loucura. E eu vou é com ele.
Era tudo o que eu precisava.
- Algum de vocês sabe como faz pra chegar no metrô?
Mais tarde eu descobri que um deles fazia Matemática na Uerj, e o outro trabalhava em um albergue no Leblon. O matemático me respondeu que sabia. Mas não tinha certeza qual era a melhor estação que deveríamos pegar. A de São Cristóvão, do Maracanã ou a São Francisco Xavier. Aparentemente estavamos no meio do caminho das três.
Nós concordamos que a melhor saída era pular daquele ônibus. A chuva continuava forte e a situação não iria mudar tão cedo. O trânsito estava parado há mais de uma hora. O matemático ainda consultou o motorista sobre sair do ônibus.
- Meu filho, aguarda aí que a chuva já vai parar. Você não sabe o que tem lá fora, é perigoso, o melhor a fazer é ficar no ônibus.
A porta da frente do ônibus era a única aberta. Eu disse para os dois que não tinha jeito, nós tínhamos que sair dali porque a situação não ia melhorar. Coloquei os óculos dentro da mochila e pulamos a roleta do trocador. Foram os R$2,40 mais bem gastos da minha vida.
Quando coloquei meus pés na água, não imaginava que fosse estar tão gelada. Meu instinto natural foi achar um grande pedaço de iceberg para deixar a Rose a salvo. Depois de ouvir um grito, acordei.
- A ESTAÇÃO DO METRÔ É LÁ NA FRENTE!
Estávamos na Rua São Francisco Xavier. Há cerca de 4 quadras do Colégio Militar. Passamos pelos carros que separavam nosso ônibus do semáforo mais próximo. Ali conseguimos entender porque estava tudo parado.
A cada encruzilhada da rua, formavam-se lagoas. Não eram carros enguiçados ou trânsitos extensos. Lagoas impediam que qualquer carro cruzasse as ruas. E não apenas isso. A correnteza era fortíssima. Um pouco antes de cruzarmos um desses lagos, um experiente homem de cerca de 40 anos juntou-se ao nosso comboio. Ele nos dava instruções ao meio da chuva e de raios e trovões.
- NÃO LEVANTA MUITO O PÉ SENÃO A CORRENTEZA VAI TE LEVAR.
Era a minha primeira vez num dilúvio, eu TINHA que levantar um pouco o pé pra ver como era. Quase caí naquela água enlamaçada. Dava para sentir o lodo ao pisar no chão daquela lagoa.
Após essa primeira encruzilhada auxiliamos um comboio que vinha do lado oposto. Na minha experiência já pude comentar.
- Vai andando como seus pés tivessem amarrados um no outro!
Por vários momentos trocamos informações com outras pessoas que passavam por nosso caminho. Era incrível como o ser humano se une nessas horas. Nessas situações não existe idade, cor, sexo ou gênero. Todo mundo é igual. Todo mundo está tentando chegar em casa e tenta ajudar o próximo em fazer o mesmo.
A cada posto de gasolina que pássavamos, dava para avistar pessoas de paletós e vestidos sequinhas abaixo do teto das lojas de conveniência. As pessoas nos olhavam como se fossemos animais em busca da sobrevivência. E nós éramos.
Passamos por outra lagoa de correnteza forte. Depois dessa, chegamos em um ponto da rua em que só estava alagada pelos cantos. Ali já haviam carros passando e pessoas com guarda-chuvas.
Havíamos andado cerca de meio quilômetro para enfim chegar na estação do metrô. A chuva já não estava mais tão forte. Eu estava ensopado da cabeça aos pés e era irônico como haviam pessoas dentro da estação com medo de pegar a parte mais fraca da chuva.
No final não houve resgate de helicóptero e um lindo pôr do sol. Ao invés disso, um vagão quente e quase vazio. Depois de alguns minutos de viagem entendi porque os filmes terminam assim que os principais chegam em um lugar seguro. O silêncio se instaurou. Não havia assunto. Como trilha sonora para o final, apenas os espirros do jovem matemático.
Não trocamos e-mail, telefone ou facebook. Nos cumprimentamos com um aperto de mão honrados de termos passado por aquilo. E então cada um seguiu o seu caminho.
Relato referente à chuva de 25 de abril de 2011.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Neline (incompleto)
Peguei um ônibus no Aeroporto do Galeão para voltar pra casa. As malas dos turistas que estavam chegando no Rio de Janeiro entupiam os corredores do ônibus, impedindo que um casal de alemães e sua pequena filha conseguissem um lugar no fundo. Um passageiro tentou ajudá-los falando em português. Depois tentou ajudá-los falando em português lento. E por último com gestos.
- We don't speak portuguese, sorry!
Tive de intervir.
- He told you to sit here, and he will go sit over there.
Ela sentou do meu lado, com a filha no colo. O marido teve que pular as malas pra conseguir um lugar no final do ônibus.
- Thank you very much, are you brazilian?
- Yes. And you, where are you from?
- We are from Germany. You live around here?
- No, no. I was around, so i came to the airport to get the bus to my place.
- Oh, I see.
Ela traduzia tudo para a filha. Alemão e português eram línguas completamente diferentes, mas dava pra sentir.
Mandei mensagens de texo para os meus amigos perguntando se eles tinham alguma pergunta pra fazer. As respostas:
"Pergunta pra ela o que ela acha do Obama e do Sarkozy com a guerra na Líbia"
"Pergunta pra ela sobre a Europa, e se ela conhece um bom hotel em Amsterdãm"
"Ela é bonita? Pergunta se é solteira."
É aí que você se dá conta que cada um dos seus amigos representa uma parte de você.
Perguntei para ela sobre o que ela conhecia da europa, no que ela trabalhava, o que tinha achado de Amsterdam.
Ela era química, já havia visitado mais de 10 países da Europa, e me contou tudo sobre as drogas que você pode comprar em Amsterdam. (incompleto, to atrasado)
Sua filha estava esparramada em seu colo. Passamos pela praia do flamengo, praia de botafogo e pelo "sugar loaf in the dark".
- I have to go now.
Ela se levantou com a filha. Eu coloquei suas malas que estavam no chão na minha poltrona, enquanto ela me agradecia pela conversa.
- What's your name?
- Neline. And you?
- I'm Gabriel
Houve um sorriso mútuo e um adeus.
Desci do ônibus e fui pra casa... e agora vou sair denovo.
- We don't speak portuguese, sorry!
Tive de intervir.
- He told you to sit here, and he will go sit over there.
Ela sentou do meu lado, com a filha no colo. O marido teve que pular as malas pra conseguir um lugar no final do ônibus.
- Thank you very much, are you brazilian?
- Yes. And you, where are you from?
- We are from Germany. You live around here?
- No, no. I was around, so i came to the airport to get the bus to my place.
- Oh, I see.
Ela traduzia tudo para a filha. Alemão e português eram línguas completamente diferentes, mas dava pra sentir.
Mandei mensagens de texo para os meus amigos perguntando se eles tinham alguma pergunta pra fazer. As respostas:
"Pergunta pra ela o que ela acha do Obama e do Sarkozy com a guerra na Líbia"
"Pergunta pra ela sobre a Europa, e se ela conhece um bom hotel em Amsterdãm"
"Ela é bonita? Pergunta se é solteira."
É aí que você se dá conta que cada um dos seus amigos representa uma parte de você.
Perguntei para ela sobre o que ela conhecia da europa, no que ela trabalhava, o que tinha achado de Amsterdam.
Ela era química, já havia visitado mais de 10 países da Europa, e me contou tudo sobre as drogas que você pode comprar em Amsterdam. (incompleto, to atrasado)
Sua filha estava esparramada em seu colo. Passamos pela praia do flamengo, praia de botafogo e pelo "sugar loaf in the dark".
- I have to go now.
Ela se levantou com a filha. Eu coloquei suas malas que estavam no chão na minha poltrona, enquanto ela me agradecia pela conversa.
- What's your name?
- Neline. And you?
- I'm Gabriel
Houve um sorriso mútuo e um adeus.
Desci do ônibus e fui pra casa... e agora vou sair denovo.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Todos querem ser Cult
- Por que hoje em dia as pessoas não entram mais no msn? Só ficam no chat do Facebook?
- Porque o Facebook é cult. E as pessoas querem ser cult.
- Realmente. Semana passada eu assisti um filme de 1932. Só porque ele era de 1932.
- Porque o Facebook é cult. E as pessoas querem ser cult.
- Realmente. Semana passada eu assisti um filme de 1932. Só porque ele era de 1932.
Ades sabor Abacaxi com Limão
O novo Ades sabor abacaxi com limão tem gosto de bala Juquinha. Me sinto como se eu estivesse com meio litro de festa infantil na barriga.
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