Desci do ônibus próximo ao shopping. No meio da multidão de pessoas vi de relance um rosto conhecido. Ele passou rapidamente, mas olhando para a mochila em suas costas pude confirmar. Era o jovem matemático do dilúvio passado.
Lembrando a despedida no metrô, recordei que eu não tinha buscado por nenhuma forma de contato propositalmente. Eu queria fazer um teste. Deixar nas mãos do universo, do destino ou seja lá qual for a força superior existente qualquer forma de reencontro com os estranhos que eu estava conhecendo esse ano. Isso valia para a mestranda em nutrição, o metaleiro do metrô e a quarentona das Laranjeiras.
Já passavam das 22 horas quando eu caminhava por uma rua escura próxima à minha. Na calçada da direita havia um grupo de três meninos. Na verdade,escolha o substantivo que quiser. Pivetes, meninos cracudos, batutinhas. Eles andavam como se fossem os donos da rua.
Eu segui pela minha calçada atento. Não havia mais ninguém por perto. Antes de chegar na esquina, avistei uma menina. Ela parecia esta arrumada para uma festa e para ser vítima de Jason. Assim que ela viu os meninos, mudou para a minha calçada.
Ela ficou parada no meio da esquina, como se estivesse esperando eu chegar perto. Ela fez uma série de movimentos em menos de 5 segundos. Arrumou a bolsa, pegou no celular, olhou pra baixo, deu meia volta. Ela estava com medo. Na nuvem de Dolce & Gabbana dava pra sentir o cheiro da adrenalina.
Chegando perto dela, uma série de coisas passaram pela minha cabeça em menos tempo ainda. Eu achei que era melhor falar algo do que ficar calado. E então apontando para a direção oposta do meu caminho e me esforçando ao máximo para não parecer o maníaco do parque, eu perguntei:
- Você quer passar pra lá?
Ela deu uma tremida de leve assim que eu comecei a dizer a primeira sílaba, e depois olhou pra mim com um sorriso nervoso. Ela não disse nada. Apenas assentiu com cara de assustada.
Dei meia-volta. Ela a princípio me deixou andando um passo a frente. Depois que os meninos passaram da nossa linha de visão, ela começou a andar na minha frente e olhando para trás. Quanto desespero! Nem falei nada. Talvez ela naquele momento apenas estivesse pensando que era uma legítima sexta feira 13, enquanto eu só descobriria ao chegar em casa.
Quando chegamos no final da rua ela se acalmou. O barulho dos carros e pedestres foram a sinfonia da sua serenidade. Eu me sentia telespectador das grandes emoções que a criatura estava passando.
- Tá tudo bem agora?
Ela me agradeceu e confessou que estava muito nervosa., não conhecia essas ruas e provavelmente teria se perdido se procurasse outro caminho."Você me salvou". Eu fiquei sem graça, é claro. Respondi ao agradecimento dizendo que não havia sido nada. Eu tive vontade de continuar a conversa, mas algo me disse que havia chegado a minha hora. Eu tinha que ir, e ela também. E então cada um seguiu o seu caminho.
Na verdade eu não era tão herói assim. Eu conhecia um deles. Um dos garotos. Morava próximo a mim. Era um largado no mundo, vivia pelas ruas. Parecia um arruaceiro, mas eu desconhecia se ele já havia feito algo grave. No final das contas, me senti como se eu tivesse oferecido o meu assento para uma idosa, quando faltam menos de 30 segundos para o metrô chegar na minha estação. Agradecimentos, bom karma e energia positiva de graça. E ás vezes até mesmo uma balinha.
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ResponderExcluirAcabei aqui por acaso graças a um link no orkut. Adorei a forma como vc narra essas aleatoreidades. Vc acaba de ganhar uma nova seguidora!!! Beijos Anninha
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